Addiction – Oil pastel on paper 35x25cm Private collection 2001
Vício – Pastel oleoso s/papel35x25cm
Acervo Particular 2001

Untitled – Oil pastel on paper 35x25cm Private Collection 2001

S/título – Pastel oleoso s/papel 35x25cm
Acervo Particular 2001

Untitled – Oil pastel on paper 35x25cm Private Collection 2001

S/título – Pastel oleoso s/papel 35x25cm
Acervo Particular 2001

Metáfora do Inconsciente

Yoshiya Nakagawara Ferreira
Profa. Doutora da Universidade Estadual de Londrina

Na trajetória de vida de todo ser humano, em algum momento ou sob alguma circunstância, a questão da identidade se coloca como que exigindo uma postura diferente ou nova. Esta postura, muitas vezes significa uma retomada, um direcionamento ou uma ruptura perante a evolução natural das condições até então vigentes. Foi o caso da Érica Kaminishi. A sua permanência de 03 anos no Japão, entre estudos, cursos de arte e trabalho, fez com que a transição da adolescência para a idade adulta fosse acrescida de uma profunda reflexão interna sobre a sua mente, corpo e espaço. Embora nascida no Brasil, a sua ascendência oriental mexeu com toda a sua formação, pensamento e atitude, pois, o ambiente desconhecido, o cotidiano e as experiências diárias, traziam emoções, angústias e inesperadas surpresas. Emoções contidas e acumuladas e angústias não verbalizadas necessitavam de espaços para a sua expressão. A psicanalista Marie-Claude Thomas escreveu que “o silêncio é o efeito de uma palavra em espera”. Um outro psicanalista, Xavier Audouard, registrou sabiamente que “o silêncio é o núcleo ativo da palavra”.

O espaço interior da Érica ainda era frágil, mas era necessário resistir e enfrentar novas experiências. E a aparente fragilidade gerava posturas e atitudes que iam se consolidando, gerando dúvidas e aumentando o seu imaginário. Os inusitados fragmentos do cotidiano, misturados muitas vezes à dor física, massacrada nos modernos trens/bala, fizeram-na mais forte, menos ansiosa.

Sartre, filosofando sobre as imagens, registra que “as imagens, uma vez percebidas, se fixam e se alinham na memória.” Afirma que a imagem “elemento essencial da vida psíquica, aparecerá na reconstrução da percepção exterior”. Mas, como e por que é importante fazer essas considerações genéricas sobre o silêncio e a imagem? Porque na expressão pictórica de Érica Kaminishi, a sua múltipla experiência, em um novo ambiente, praticamente oposto ao espaço até então vivido, se revela, como que transmudando do seu espaço interior para o exterior, na tentativa de afirmação da sua “nova” personalidade. E, por que na forma escrita? Respondemos com as palavras de Wilson Martins, crítico e um dos maiores historiadores da literatura brasileira “(…) a escrita é apenas um – provavelmente o mais perfeito e o menos obscuro – entre inúmeros outros sistemas de linguagem visual : a essa mesma categoria, pertencem os desenhos, a mímica, os códigos de sinais marinhos e terrestres, luminosos ou não, os gestos, em particular a linguagem por gestos dos surdos-mudos, etc.”

Nos catorze trabalhos que a Érica apresenta, através do pastel oleoso sobre papel, em pequenos e médios formatos, só é perceptível e passível de leitura, quem se aproximar bastante para, numa atitude intimista, tentar desvendar a sua palavra/caligráfica, ora idéia/pensamento ou crítica/pós-moderna ao mundo contemporâneo. São trabalhos bem laboriosos, feitos silenciosamente, como que desvendando as camadas que foram se entrelaçando na sua vivência. Nem por isso, os detalhes de efeito plástico, às vezes mimético transparecem e se firmam como que intuitivamente, procurando espaços destinados à cor/movimento. Baudelaire, poeticamente disse: “qualquer lugar, fora do mundo”. São palavras que simbolizam metaforicamente, a busca e a afirmação de um novo lugar, uma topofilia, um lugar com afeto.

Uma outra constante no trabalho de Érica é a presença de rostos, caras, artesanalmente padronizados, alguns semi-círculos pictoricamente caligrafados. Parece proposital o seu recado: somos todos tratados da mesma forma, somos números, códigos, letras, definindo o nosso modo de agir, de ver, de pensar. Somos todos iguais. Iguais? Aqui, mais uma vez se coloca a questão da personalidade, a massificação diária do homem, o trabalho anônimo, duro e repetitivo, multidões em silêncio…

Uma leitura mais atenta do seu trabalho identificará a estrutura da crítica e a dimensão inconsciente do nosso cotidiano. Vejamos:

nome, rg, identidade, cpf, sobrenome, data de nascimento, nome, idade, estado civil, data e local de nascimento, título de eleitor, filiação, tipo sanguíneo, peso, altura, cor da pele, endereço, telefone, trabalho, escolaridade, religião, referências, passaporte ……….

somos comuns, somos iguais, somos humanos, somos selvagens, somos iguais, somos irmãos, tudo igual, nada diferente, incoerência, palavras desconexas, medo da solidão, medo da indiferença, medo do desconhecido, medo da beleza, medo de viver, medo do sofrimento, medo da verdade, medo de nada, medo de tudo, medo da velhice……..

você consegue se observar? você consegue ler todas estas minúsculas palavras? você consegue ver tudo claramente? você consegue ler todas as formas de consciência?……….

Richard Sennett, um destacado pensador do mundo contemporâneo faz um alerta aos nossos sentidos, quando diz que : “a plenitude dos sentidos e a atividade do corpo foram de tal forma erodidas, que a sociedade atual aparece como um fenômeno histórico sem precedentes”.

É dentro desse contexto que o trabalho da Érica Kaminishi deve ser compreendido. A sua arte se insere no seio da arte contemporânea como uma arte onde a grandeza do homem se expressa no seu cotidiano, como resposta à padronização sem qualidade, esmagando os sentidos e a percepção sensório-psíquica dos que não estão atentos às transformações do mundo.

Londrina, Junho de 2001

   

 

 

Reflexão de vida e Arte

Reflexão de vida e Arte
por Nilza Procopiak
Membro da Associação Brasileira e Internacional de Críticos de Arte – ABCA/AICA

Excelente a exposição de Érica Kaminishi. Poucas vezes eu vi neste ano uma reunião tão significativa do formal e da manifestação da consciência do artista. O rigor da apresentação estética ao qual se sujeita a artista é plenamente compensado por uma carga repleta de emoções, de sentimentos e de reflexão sobre a vida, sobre o mundo em que vivemos, sobre nós mesmos, numa psicanálise formal que revvela o lado sensível de todos nós.

Jornal do Estado 07/09/2001.